Luta contra a Aids: da descoberta ao tratamento

  Dra. Sumire Sakabe   |     Dezembro 1, 2016   |     Infectologia

Desde as primeiras notícias sobre o aparecimento da doença, ainda na década de 80, as instituições de saúde do mundo todo têm dedicado esforços a conscientizar a população sobre os perigos da aids, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

A doença é o estágio mais avançado da infecção pelo vírus HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), que compromete o sistema imunológico, deixando o organismo desprotegido contra outras doenças, como tuberculose, pneumonia e até mesmo algumas formas de câncer, como o sarcoma de Kaposi.

Cenário atual

Estima-se que, no Brasil, existam cerca de 830 mil pessoas vivendo com o vírus do HIV, de acordo com dados da Unaids, referente a 2015. No ano passado, a instituição estima a ocorrência de 44 mil novos casos. 

A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo informou recentemente que o número de novos casos de Aids na capital paulista caiu 31% entre 2006 e 2015. De acordo com a pasta, o vírus tem atingido mais homens, principalmente os jovens.

Os dados apontam que o número de portadores do vírus HIV entre 15 e 19 anos aumentou 8,6%. Entre 20 e 24 anos, o aumento foi de 98,6%. Na faixa de 25 a 29 anos, o crescimento foi de 15,7%. De acordo com os dados da secretaria, 45% dos homens que contraíram a doença fazem sexo com outros homens.

Dentre as pessoas desta mesma faixa etária, apenas 34,8% declararam uso de preservativo em todas as relações sexuais nos últimos 12 meses que antecederam a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas na População Brasileira de 2008, conduzida pelo Ministério da Saúde.

Apesar disso, idosos e as mulheres também estão entre os grupos com grande número de infectados nos últimos anos. 

Mas afinal, qual a realidade de quem é soropositivo?

Se na década de 1980, ser soropositivo era praticamente uma sentença de morte, hoje o paciente infectado que faz uso regular dos medicamentos tem uma vida longa e algumas restrições: não pode doar sangue, o uso do preservativo deve ser sempre mantido e alguns cuidados especiais precisam ser considerados no planejamento de gravidez, por exemplo.

Outros cuidados são importantes, como vacinas específicas e, a depender do grau de imunossupressão, medicamentos para prevenir outras infecções podem ser necessários. 

Apesar de o tratamento ter se tornado mais potente e mais seguro ao longo dos anos, a realidade de quem convive com a infecção - que ainda não tem cura - não é fácil. Todos os dias, o paciente precisa tomar uma combinação de medicamentos que ajudam a impedir a multiplicação do vírus HIV no organismo e com isto, aumentar a concentração de linfócitos CD4, células responsáveis pela defesa do organismo e que são as mais afetadas pelo vírus.

Além disso, ao menos 15 mil pessoas morreram somente no Brasil em decorrência da Aids, de acordo com dados da Unaids.

Diversas combinações de medicamentos antirretrovirais podem ser utilizadas. Hoje é disponível até mesmo uma combinação de 3 drogas em um único comprimido ao dia. Esta e qualquer outra combinação de medicamentos deve ser utilizada todos os dias, regularmente, sem interrupção, sob risco do HIV ficar resistente aos medicamentos. Além da disciplina na tomada de medicamentos, o tratamento exige consultas médicas periódicas, prática de exercícios físicos regulares e hábitos de vida saudáveis.

Como qualquer medicação, efeitos adversos podem acontecer e precisam ser monitorados. Desde 1996, o tratamento é disponibilizado gratuitamente pelo SUS para todos os pacientes, sejam eles acompanhados nos serviços públicos ou privados.

Desde 2013, o Ministério da Saúde do Brasil recomenda que todas as pessoas infectadas pelo HIV sejam tratadas com antirretrovirais. Estudos demonstram benefício clínico para as pessoas tratadas precocemente com antirretrovirais. Além disso, pessoas adequadamente tratadas têm a quantidade de vírus no sangue muito reduzida (carga viral indetectável) e isto diminui o risco de infectar parceiros ou parceiras sexuais.

Preconceito

Em tempos de tratamento eficaz e disponível para todos, talvez uma barreira ainda esteja por ser transposta de forma definitiva: o preconceito. O HIV não distingue cor, classe ou religião. Quem estigmatiza, julga ou acolhe somos nós. O vírus é transmitido através do sexo desprotegido, em qualquer de suas formas (vaginal, anal ou oral), de homem para mulher, de mulher para homem, de homem para homem e foi até mesmo descrita transmissão entre mulheres que usaram vibrador sem preservativo enquanto menstruadas.

Em tempos de tratamento eficaz e disponível para todos, talvez uma barreira ainda esteja por ser transposta de forma definitiva: o preconceito

O vírus da imunodeficiência humana também pode ser transmitido da gestante para o feto, ou da mãe para o filho que amamenta. É possível proteger o recém-nascido de se infectar se a gestante estiver em tratamento adequado, com carga viral indetectável e se o bebê fizer uso de medicamento logo ao nascer. Infelizmente, não há forma tão eficaz para nos proteger da intolerância.

A eliminação do preconceito exige treino diário e vigília constante, em casa e na rua. Infelizmente, a infecção acomete também grupos menos favorecidos ou minoritários, como pessoas em situação econômica e social desfavorável, profissionais do sexo, mulheres, homens que fazem sexo com homens, travestis e transexuais.

Enxergar e aceitar o direito de cada pessoa realizar a sua própria identidade e entender que abraçar, beijar, trabalhar junto, dançar e viver com alguém infectado pelo HIV não transmite o vírus é um passo enorme, corajoso e fundamental.

Sobre a cura da Aids

Muito se tem debatido sobre a cura funcional do HIV, que é a supressão permanente da replicação viral sem, contudo, ter se atingido a completa eliminação do vírus de todos os reservatórios. Estudos têm sido conduzidos, inclusive no Brasil, para avaliar estratégias para este fim.

Até hoje só um paciente soropositivo foi considerado curado da infecção. O caso aconteceu em 2007, na Alemanha, quando Timothy Brown, infectado pelo HIV, recebeu um transplante de medula óssea para tratar leucemia.

A medula recebida por Brown era de um doador que possuía no organismo uma mutação genética que impede o vírus de infectar suas células. No entanto, dados os graves efeitos adversos e riscos do tratamento, ele não pode ser aplicado a todas as outras pessoas. 

Diagnóstico

Enquanto a cura não chega, informação, prevenção e diagnóstico precoce são as melhores armas disponíveis. Além de sempre usar preservativo nas relações sexuais, é importante fazer testes regulares que podem diagnosticar a infecção.

Qualquer pessoa pode procurar os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e realizar gratuitamente testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C. Hoje já é disponível até mesmo teste em fluido oral, realizado com uma amostra de saliva. 

Prevenção

Nas situações de maior risco, por exemplo em relação sexual desprotegida com parceir@ infectado ou de sorologia desconhecida, é possível ainda lançar mão de tratamento para prevenir a infecção.

A profilaxia pós-exposição, PEP, é também oferecida gratuitamente em unidades designadas do SUS. O medicamento precisa ser iniciado o mais breve possível, após a exposição sexual de risco, idealmente dentro de algumas horas e no máximo em 72 horas. 

A profilaxia pré-exposição, PreP, consiste no uso de medicamentos antirretrovirais por homens (ou travestis/trans) que fazem sexo com homens, de forma continuada, combinada com uso de camisinha, para diminuir o risco de infecção pelo vírus. Este recurso ainda não é disponível no Brasil, exceto em situações de pesquisa clínica.

Fica a dica: viver de olhos bem abertos e se prevenir continua a ser a melhor ideia!

Dra. Sumire Sakabe

Dra. Sumire Sakabe

Dra. Sumire Sakabe é Médica Infectologista do Hospital 9 de Julho.

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